O Clube > História do Clube

O primeiro gafanhão era sem dúvida mais dado ao trabalho do que ao desporto. Aliás, nem outra coisa seria de admitir, se imaginarmos o esforço desenvolvido no dia-a-dia para alcançar o milagre da transformação destas terras em oásis verdejante. Os tempos livres, quando os tinha, passava-os cantando e bailando, sobretudo depois das tarefas comunitárias de que ainda se conservam algumas reminiscências. Recordamos o fabrico de adobos nas dunas junto à mata, a apanha do tremoço, as rasgadelas de tiras, uma ou outra sementeira e colheita. E ficava-se por aí.

Mas o desporto depressa o desafiou e a bola, que hoje movimenta milhões de jovens de todas as idades, quer como praticantes, quer como espectadores, começa também a saltitar, impulsionada quantas vezes por pés desajeitados, mas determinados, nos arenosos e incertos campos da Gafanha da Nazaré e arredores.

Em jeito de registo para se não perder na memórodo tempo, e sempre à espera de que alguém mais afoito e com mais tempo e pachorra se aventure a fazer história nesta área tão expressiva como é o desporto, aqui deixamos, a traços largos, o que em curto fim-de-semana foi possível sacar do subconsciente e de um ou outro apontamento achado na gaveta.

Lembramos, e com que saudade, antigos clubes que há cerca de 45 anos (segundo nos diz a nossa memória) por aqui mexiam com a juventude desta terra que agora é vila. E faziam-no com tal garra que ainda hoje sentimos o entusiasmo com que os jogos eram aguardados e disputados. Referimo-nos, concretamente, à Associação Desportiva Gafanhense que tinha o seu quartel-general na Cale da Vila, à União Desportiva Gafanhense que cantava de galo na Cambeia e ao Atlético Clube da Marinha Velha que, como o nome indica, se impunha no lugar que o baptizou. Mas não se julgue que só o futebol foi rei nesse tempo. Também o Basquetebol e a Natação, mais sob a responsabilidade da Associação, por aqui se praticaram nessa data já um pouco distante da nossa meninice.

O futebol, esse sim, foi sempre o desporto favorito do gafanhão e todas as tentativas para implantar outro qualquer, têm saído frustadas, com poucas mas muitas dignas excepções.

Mas continuemos a remexer nas gavetas da nossa memória para lembrar o que foram e como foram os jogos entre esses clubes rivais da mesma terra. Antes, porém, diga-se que a Associação tinha o seu campo de jogos nas areias da mata, em zona denominada das lebres (haveria, por ali, tantas lebres que se justificasse o baptismo???); o Atlético jogava no campo da borda, com o moinho do tio Conde à vista, sujeitando-se a ver a bola fugir levada pela corrente, sobretudo em maré cheia, isto se entretanto um mais afoito não conseguisse salvá-la das águas salgadas; e a União aproveitava a cedência do campo do forte que a JAPA mandara construir, ali bem perto do Forte Novo ou Castelo da Gafanha. Serviu, como as gerações actuais sabem, o GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA até 1983, embora, por falta de iluminação, os treinos nocturnos ali tivessem continuado durante cerca de dois anos.

As rivalidades próprias de qualquer desporto também naqueles tempos se vieram com muita paixão. Os jogos não eram oficiais, já que se tratava de clubes não filiados em qualquer Associação, excepção feita para o Atlético que, segundo na altura foi amplamente divulgado, chegou a ser clube oficial, porém sem qualquer proveito desportivo. E a paixão dos seus dirigentes, por pressão logicamente psicológica dos seus adeptos, chegava ao ponto de procurarem e convidarem jogadores, expressamente para cada jogo, pertencessem eles aos clubes rivais, a outros clubes amadores da região ou ao Beira-Mar que já era instituição de respeito na altura. O importante era ganhar, custasse o que custasse. E tal como hoje, também naquela época as vitórias ou derrotas eram comentadas com fervor e com promessas de “vingança” para a próxima vez, que podia ser no domingo seguinte. A curiosidade maior dos muitos adeptos estava em saber quem é que jogava e em que clube! E se o dirigente não era suficientemente diligente ou bastante abonado para cativar os melhores jogadores, podia muito bem preparar as malas e desandar. Esses dirigentes não serviam. E ainda hoje é assim. O único dirigente, que saibamos, que acompanhou sempre o seu clube, desde o nascimento até à morte, foi o senhor Casqueira, mais conhecido por Casqueirita. Quando ele se cansou de gastar quanto tinha e não tinha com o seu Atlético, o clube morreu. É que, naqueles tempos, como hoje, os profissionais ou aparentados podem levar um clube à ruína, principalmente se não houver ponderação nos gastos e realismo nas contratações.

Em 1956 pouco restava destes três clubes amadores, a não ser o gosto pelo Futebol que eles souberam deixar como herança. Daí o viveiro de praticantes, alguns dos quais se impuseram mesmo a nível nacional, representando clubes da primeira divisão. Perdidos ou mais ignorados, muitos outros jogaram em escalões inferiores, enquanto alguns, quando já eram certezas no mundo do desporto-rei, optaram por profissões mais estáveis ou emigraram.

Para se não tornar fastidioso, apenas recordamos, em jeito de parêntesis, os que, em nossa opinião, mais se evidenciaram: Sílvio, que foi internacional júnior no tempo do célebre José Augusto do Benfica; Fidalgo, que esteve no Benfica e brilhou no Vitória de Guimarães, no tirsense e na Sanjoanense; Lázaro, jogador de primeiro plano e que se distinguiu no Beira-Mar, no Leixões e no Vitória de Guimarães; Calisto, Violas e Adérito Ribau, que muito deram à equipa da capital do Distrito. E muitos outros poderíamos citar, alguns dos nossos dias, se tempo e espaço tivéssemos. Fica a tarefa para edições futuras desta ou de outras edições culturais ou desportivas. Aos mais ligados ao desporto deixamos o desafio de um registo mais circunstanciado.

… E NASCE O GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA

Em 01 de Agosto de 1957, segundo reza o Artigo número um dos estatutos, nasce o GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA. Da gafanha, por pretender, na altura, representar toda a sub-região assim denominada.

Tempos antes, na barbearia do Hortênsio, nasceu a ideia de se criar um clube desportivo que fosse, de alguma forma, o herdeiro dos atrás citados e entretantos extintos. A escolha do nome logo se pôs. Havia três opções, porque havia outros tantos adeptos dos clubes que anos antes entusiasmaram os gafanhões. Houve necessidade de ultrapassar o obstáculo e a primeira proposta de baptizar a nova instituição com o nome de GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA partiu do indigitado presidente Henrique Correia. Era um nome pouco expressivo para a épocae, talvez, até para os nossos dias. Mas foi o que ficou. Recordamo-nos do último argumento que entretanto foi aduzido e que foi mesmo convincente: “Não podemos adoptar qualquer nome dos clubes extintos” – dizia o Henrique Correia, cuja memória sentidamente aqui referimos para a homenagem que lhe é devida, já que foi, embora por pouco tempo, o primeiro presidente do GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA – porque não queremos nem devemos assumir responsabilidades perante os credores desses clubes. Naquele tempo, tal como nos nossos dias, os clubes desportivostinham inúmeras dificuldades económicas e financeiras. E era legítimo que o grupo nascesse sem qualquer vinculação aos anteriores, a não ser ao gosto pelo desporto que eles nos legaram. Também assim, livre da tutela do passado de qualquer deles, poderia o jovem clube congregar à sua volta todos os gafanhões, amantes, principalmente, do desporto-rei.

Ao entusiasmo da primeira hora, que conduziu mesmo à elaboração dos Estatutos e consequente registo e publicação no Diário do Governo (III série, nº 163 de 14 de julho de 1958) e inscrição na Associação de Futebol de Aveiro, não correspondeu uma adequada organização. O presidente Henrique Correia emigrou para o Canadá e os colegas da direcção, mais novos e inexperientes, deixaram o GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA em letargia, até que um calor de primavera o fizesse acordar para vida nova. E assim aconteceu no dia 31 de Maio de 1968. Nesse dia, e conforme reza a Acta número um.

É justo lembrar, mesmo de fugida, os primeiros passos da ressureição do GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA. No café central, no antigo, como é evidente, do saudoso António Fidalgo Carlos, havia uma espécie de tertúlia onde os problemas da comunidade eram acerrimamente discutidos com espírito construtivo. Da discussão por vezes acalorada nasciam quase sempre propostas de projetos, alguns dos quais se impuseram. O da restauração do GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA foi um deles. E em boa hora, diga-se de passagem.

Animava essa tertúlia o Prior da freguesia, Padre Domingos, e dela fazia parte o autor destas linhas. Outros gafanhões também entravam na dança, mas não os citamos para não corrermos o risco da indelicadeza do esquecimento, aliás sempre desagradável. Bons tempos! Ali mesmo foram congeminados os Corpos Gerentes e numa ou noutra reunião foram acertadas as agulhas e criadas as condições para se avançar. E foi o que aconteceu. Até hoje. Até sempre, sobretudo enquanto houver amantes do desporto.

Claro que o GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA não tem sido só Futebol, embora seja esse desporto a mola real do clube. O Atletismo atingiu grande projecção e foi escola de atletas de renome que levaram muito longe e muito alto o nome da Gafanha da Nazaré, principalmente enquanto teve como timoneiro o João Gandarinho Fidalgo. O automobilismo também deu nas vistas, quando o Dr. Humberto Rocha, bem acompanhado pelo Nélson Mónica, Levi Ribau e Silva Vieira, gostava da aventura das corridas e gincanas, e a Pesca Desportiva mostrou que na Gafanha da Nazaré também se sabe pescar, especialmente quando o benjamin Albuquerque tem paciência para levar alguns gafanhões a contemplarem as águas calmas da Ria ou as mais agitadas do mar, enquanto aguardavam que o peixe picasse. Outras secções foram surgindo ao sabor da maré, tal como foram desaparecendo. Uma, porém, tem sobrevivido sem alardes, para apoiar quantos gostam da vida ao ar livre. Referimo-nos à secção de Campismo e Caravanismo que o Armando cravo pôs de pé e dirigiu com amor clubista durante 15 anos.

Um ano de oiro da colectividade foi sem dúvida o de 1972. A equipa sénior de Futebol ascendeu à primeira divisão regional e os juniores foram vice-campeões distritais, tendo também participado no campeonato nacional da categoria. Nesse mesmo ano os pescadores desportivos ganharam coletivamente o concurso internacional do Recreio Artístico de Aveiro e no Atletismo uma colecção de títulos à escala regional e dois recordes nacionais de infantis, estes por intermédio de Eneida Maria (60 metros e salto em comprimento), enriqueceram as cores do GRUPO DESPORTIVO DA GAFANHA e dignificaram todos os gafanhões que nos seus atletas se revêem.

Os êxitos continuaram em várias frentes até aos nossos dias e deles há registos na memória de todos os gafanhões apaixonados pelo desporto e pelo progresso desta terra que começou do nada há tão poucos anos. Daí o não sentirmos necessidade de os apontar hoje e aqui.

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